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Por que os cães mordem?

Por Claudia Pizzolatto


É comum a gente ouvir os donos se queixando de que seus cachorros são agressivos. Que mordem, inclusive os próprios donos, do nada, de uma hora para outra. Será?
Também é comum ouvir pessoas dizendo que o cachorro Fulano de Tal é assassino. O cachorro Sicrano é mau caráter, e o lulu Beltrano é de uma raça que não presta. Todos deveriam ser exterminados, para o bem da sociedade. Será?

E os donos de Fulano, Sicrano e Beltrano, será que não têm nenhuma responsabilidade nisso tudo? Será? Será?

A verdade é que os casos em que os cachorros são uns loucos perigosos, que realmente mordem do nada, são raros . Não que não existam cachorros loucos e perigosos, mas o comportamento deles não surgiu do nada. A grande maioria recebeu algum tipo de "apoio" para ficar deste jeito. Até porque, se o cão não tem desvio de comportamento de ordem genética (maus cruzamentos), ou se ele não estiver sofrendo de alguma doença neurológica, a agressividade é uma forma de defesa do cão e não de ataque.

Normalmente o cão morde para defender seu território, seu dono, sua fêmea (ou chance de procriar). Morde para se defender de um ataque físico por parte de outros animais, ou até mesmo do próprio dono. Porque sente dor, porque sente a sua posição hierárquica ameaçada, ou porque está com medo. Para que vocês possam entender melhor como os casos mais comuns de mordidas acontecem, e de como eles foram "crescendo" ao longo do tempo sem que ninguém percebesse, vou contar alguns casos verdadeiros. Os nomes dos donos e dos cães são fictícios para preservar a privacidade dos cães, é claro!

CASO 1:
EU FAÇO TUDO POR ESTE CACHORRO. NÃO SEI COMO ELE PÔDE ME MORDER!!!!
Ele mordeu porque ele tem tudo o que quer, faz tudo o que quer, logo: morde quem ele quiser!

Quando a dona de Zippo, um lindo Poodle Toy, me pediu para ir visita-la, Zippo estava com a coleira no pescoço por 4 dias consecutivos e ninguém conseguia tira-la sem correr o risco de ganhar umas dentadas.

Zippo tem uma vida super tranquila. Comida farta, no prato o dia todo, passeios diários, brinquedos espalhados por toda a casa, banho toda semana, e muito, muito carinho. Zippo dorme na cama, vive no colo, senta na parte mais alta do sofá (isso mesmo, ele senta no encosto do sofá). Zippo é muito carinhoso e meiguinho. Quando quer! Zippo pode ficar muito zangado quando é contrariado.

A dona de Zippo é um amor, fala baixinho, educada, carinhosa, devotada e preocupada com seu cachorrinho. Zippo é o filho que ela sempre quis, a não ser quando é contrariado. Então qual é o problema com Zippo? Pro Zippo nenhum!

Na verdade o que está acontecendo com Zip (como ele é chamado pelo amigos) é que ele não conhece a palavra NÃO. Zip não tem limites nem regras para seguir. Zip é o líder de sua matilha humana.

Quando eu cheguei na casa do Zippo fui recebida com uma alegria esfuziante. Abanos de rabo, pulinhos e gritinhos pra todo lado. Quando eu sentei no sofá Zippo quase sentou na minha cabeça. E quando eu fui tirar a coleira ele não fez absolutamente nada. Nenhuma oposição. Aliás eu tirei e coloquei, tirei e coloquei, tirei e coloquei a coleira umas 5 vezes e nada.

O meu trabalho foi mostrar para a dona do Zippo que muita concessão não é encarada, pelo cão, como amor por parte do dono e sim como fraqueza. Na verdade Zippo entendeu que a sua dona estava pedindo para ser protegida e liderada por ele. Todos os movimentos dela se assemelhavam com os movimentos de um cachorro submisso e foi isso que Zippo entendeu.

Como líder da matilha é papel do Zippo cuidar e proteger sua matilha, mas também de se fazer respeitar e de disciplinar todos os membros que tentarem contrariar a sua autoridade. Por isso Zippo só era agressivo quando a sua posição hierárquica estava sendo questionada. Quando ele não quisesse tirar a coleira a coleira não iria ser retirada. Não que a coleira tivesse algum significado especial, mas todo líder aproveita uma oportunidade, de tempos em tempos, para reforçar a sua liderança e demonstrar toda a sua autoridade.

Então a coleira fica e estamos conversados. Como eu não faço parte da matilha dele e também não estava demonstrando nenhuma atitude submissa, a coleira perdeu toda a importância. Desde filhote as características da personalidade do Zip já indicavam que ele seria um cachorrinho líder e que qualquer fraqueza dos donos seria um sinal para ele assumir o cargo de chefão. Não demorou muito para ele ver que sua dona não tinha as "qualidades" necessárias de uma líder nata e todas as tentativas dele se impor foram bem sucedidas. Nada mais justo que ele se tornasse o "TOP DOG".

Através de exercícios de obediência básica e de novas regras estabelecidas pela dona do Zippo( e não mais por ele), a dona foi capaz de convencer o Zippo de que uma posição inferior na escala hierárquica da família seria muito mais interessante. Se vocês estão se perguntando se foi fácil convencer Zip a mudar de atitude, a resposta é não. Mais difícil do que mudar a atitude do cachorro é o dono e a família mudarem a sua própria atitude, mas os benefícios são enormes, até porque, de outra maneira, a convivência se torna insuportável.

CASO 2:
O CACHORRO DEVE TER FICADO LOUCO. NÃO É MAIS CONFIÁVEL. SÓ ESTAVAM TENTANDO COLOCA-LO DE VOLTA NO CANIL QUANDO ELE MORDEU O EMPREGADO.
Stallone é o nome do bichão. Fui chamada para fazer uma avaliação do temperamento do cão que já estava com dois anos e meio. O empregado que tentou guardar Stallone ainda tinha algumas marcas roxas no braço e algumas perfurações nas mãos para provar o ataque do Rottweiler. Raça perigosa?

Assassina? Agressiva? Inconstante? Não sei, vamos ver. A história toda começou quando o dono de Sly (apelido do bichão) precisou fazer uma obra em casa. A solução era coloca-lo num canil por poucas semanas. No começo estava tudo bem, Sly saía para passear regularmente e o dono o visitava toda semana, mas as obras começaram a demorar muito… Três semanas, viraram três meses. Três meses viraram seis meses. Seis meses viraram oito meses e Sly continuava no canil.

Se no começo ele saia todos os dias, os empregados do canil começaram a relaxar e Sly não ficava mais do que 15 minutos do lado de fora por dia, apenas quando o empregado ia lavar o box dele. O dono, todo atrapalhado com a própria vida nunca mais foi visitar Stallone e o cachorro foi ficando cada vez mais abandonado.

No dia em que aconteceu o acidente com Stallone uma coisa atípica aconteceu. Foi um dia especial pois o ralo do box do Stallone entupiu e foi o maior trabalhão para consertar tudo. Como conseqüência Stallone passou umas 2 horas e meia do lado de fora. Para completar o filho do dono do canil estava passando por lá e acabou levando Stallone para passear no parque próximo. Sly adorou toda esta atenção. Se comportou como uma criança que vai no circo e obedeceu a todos os comandos. Passeou calmamente sem puxar na guia, sentou, deitou, brincou, fez tudo o que esperavam dele. Um cachorro tão educado mereceria, sem dúvida nenhuma, voltar pra casa ou pelo menos ter saídas regulares, certo? Certo! Mas o que veio logo depois foi um choque para Stallone.

Na melhor parte do dia dele o empregado do canil veio tentar prende-lo novamente. Primeiro ele tentou correr. Depois ele tentou rosnar, e finalmente ele usou do último recurso possível para não voltar para aquele lugar pequeno por mais uns 8 meses. Stallone mordeu.

Raça perigosa? Assassina? Agressiva? Inconstante? Não! Cachorro estressado, abandonado, negligenciado, desesperado.

CASO 3:
A CACHORRA É MUITO CIUMENTA. NINGUÉM CONTROLA ELA. AGORA ATÉ A MINHA FILHA, QUE ELA SEMPRE PROTEGEU, ELA DEU PRA MORDER.

Mais uma vez o cão, sempre o cão, é considerado o único vilão da história.

Quando eu conheci Brownie ela parecia uma cachorrinha alegre. Uma cocker linda, cor de chocolate. Simpática, ela abanava o rabinho que nem um ventilador, isto é, até eu começar a me aproximar. Aí a conversa foi outra. O rabinho foi lentamente deixando de abanar, Brownie começou a se abaixar e a me olhar de canto de olho. Mais alguns passos meus e ela já estava com todos os dentes de fora. Latindo e espumando, Brownie deixava claro que ia atacar.

Pedi a dona para amarra-la num banquinho e que se afastasse. No início Brownie parecia desesperada para correr para perto de sua dona. Desta vez, conforme eu fui me aproximando dela, o rabinho voltou a balançar. Brownie estava relaxada e feliz, e até passeou comigo sem problemas.

Louca? Não. Insegura, desconfiada, e, principalmente, condicionada a demonstrar agressividade quando estivesse perto da dona. Conversando com mãe e filha, a história de Brownie começou a ser delineada. A filha, uma linda adolescente, porém muito tímida, vivia pedindo à mãe um cachorro para fazer companhia a ela. Quando Brownie chegou tudo parecia perfeito. Brownie dormia no quarto da filha e estava sempre por perto. Bastava a menina sentar num lugar para Brownie se deitar aos pés dela.

Um dia, durante um briga com o irmão mais velho, a menina observou que Brownie estava nervosa e latia sem parar. Todos acharam bonitinho que a cachorrinha tentasse "defender" sua dona. Até o irmão começou a rir e a briga acabou. A menina, super orgulhosa, pegou Brownie no colo e encheu-a de carinhos. Não demorou muito para que toda vez que houvesse uma briga entre os irmãos, Brownie tomasse partido da dona, que também se aproveitava da situação para incentivar a cachorrinha a atacar o irmão, inclusive colocando-o para fora do quarto.

Mais um pouco de tempo se passou e ninguém mais podia entrar no quarto da dona de Brownie se ela estivesse lá dentro. Agora já não era mais engraçado para o resto da família. Brownie já havia mordido o irmão, o pai, a mãe e até a empregada. Qualquer um que tentasse chegar perto da menina seria mordido. Um dia Brownie tentou morder a avó da menina e quando a dona tentou evitar uma situação que poderia acabar virando uma tragédia, acabou sendo mordida.

Embora ela não admita claramente, nem a menina acha mais que Brownie seja engraçadinha. A dona ainda tenta arranjar desculpas para o comportamento da cachorrinha que tanto gosta, mas que toda família considera um perigo e acham que a cachorra deva ir embora. Pobre Brownie, só está fazendo aquilo que a dona sempre quis dela. Ou pelo menos queria.

Embora não sejam sempre exatamente iguais, casos como os de Zippo, Stallone e Brownie são muito mais comuns do que a gente pensa. Cachorros que mordem porque não aprenderam a ter limites e nem que é preciso respeitar os seres humanos que vivem junto com eles. Cachorros que não são respeitados como cachorros. Que são maltratados mesmo quando seus donos acham que seus animais têm uma boa vida. Basta comida e atenção de vez em quando. Ficam trancados por horas, dias, semanas, meses.

Seus donos são muito ocupados, trabalham o dia todo, não têm tempo para cães. Eles querem apenas um cão de guarda. Bravos. Hostis. Talvez eles nem queiram um cachorro, um banco de jardim servia. Ah, é verdade! Banco de jardim não serve porque não morde!

Cachorros que são incentivados a desempenhar um determinado papel que no início parece divertido, mas a comédia vira tragédia, sem que ninguém tenha observado os sinais de problemas chegando. Muda-se o "script" mas ninguém se deu ao trabalho de avisar o cachorro.

Todos os casos descritos neste Lord Cão News são verdadeiros, com pequenas mudanças no cenário. Em todos nós tivemos sucesso e conseguimos mudar o rumo da vida dos cães e dos donos. Infelizmente nem sempre é assim, muito mais por culpa e falta de envolvimento dos donos do que dos cães.


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